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Registro e prontuário

Anamnese: um roteiro que você adapta à sua abordagem

Oito blocos para usar como mapa, não como script — com as adaptações para criança, adolescente, casal e idoso.

· 7 min de leitura

A anamnese tem má fama merecida. Aplicada mal, ela vira interrogatório: quarenta perguntas fechadas, a pessoa respondendo em monossílabos, você anotando e um vínculo que não começou. Aplicada bem, ela é o contrário — é a conversa em que a pessoa conta a própria história e você entende, ao final, o que está sendo pedido e se você é quem pode oferecer.

A diferença não está no formulário. Está em tratar o roteiro como mapa e não como script: você sabe onde precisa chegar, e o caminho é o que a pessoa quiser percorrer.

Um roteiro é um mapa, não um script

Três regras que mudam tudo:

  • A ordem é sua, não do papel. Se a pessoa começa pelo luto do pai, você trabalha o luto do pai e volta depois para o histórico escolar — não interrompe para perguntar a escolaridade.
  • A pergunta é aberta; o campo é fechado. Você preenche "história do sono: desperta 3 a 4 vezes, há 8 meses" a partir de "e como andam suas noites?".
  • Nem tudo precisa ser hoje. Anamnese não é um evento; é um processo que costuma ocupar de uma a três sessões e continua sendo completado ao longo do acompanhamento.

O objetivo do primeiro encontro não é preencher o roteiro. É que a pessoa saia querendo voltar — e que você tenha o suficiente para formular uma hipótese inicial de trabalho.

Antes da primeira pergunta: o enquadre

Cinco minutos, no começo, poupam meses de mal-entendido. Diga em voz alta:

  • Como funciona a sessão — duração, frequência, o que acontece nesses primeiros encontros.
  • Sigilo e seus limites — que o que se fala ali fica ali, e que existem situações previstas em norma em que a proteção da vida se sobrepõe. Diga isso sem dramatizar e sem enumerar hipóteses como quem lê um aviso legal.
  • Registro — que você mantém prontuário, que ele é protegido e por quê.
  • Combinados práticos — valor, forma de pagamento, política de falta e cancelamento, reajuste. Vale antecipar a leitura de sessão cancelada e falta.

Depois disso, uma pergunta só: "o que te trouxe aqui?" — e silêncio.

Os oito blocos

Este é o mapa. Adapte a linguagem, corte o que não se aplica, acrescente o que a sua abordagem exige.

1. Identificação e contexto de vida

Nome, idade, com quem mora, ocupação, escolaridade, situação de renda, cidade. Se houver responsável, quem é e qual o vínculo. Contato de emergência.

Parece burocrático e não é: essas informações determinam viabilidade do tratamento, horário possível, rede disponível e capacidade de pagamento.

2. Demanda: o que trouxe, agora

Duas perguntas fazem o trabalho pesado:

  • "O que te trouxe aqui?" — o problema como a pessoa o formula.
  • "Por que agora?" — o que mudou nas últimas semanas. A resposta a essa segunda pergunta costuma valer mais do que a primeira: quase sempre há um evento precipitante que explica o timing.

Registre com as palavras dela. "Estou explodindo com todo mundo" é mais útil do que "irritabilidade".

3. História do problema

Quando começou, como era no início, o que piorou, o que melhorou, o que já foi tentado. Frequência, intensidade, duração dos episódios. Em que situações aparece e em que situações não aparece — a exceção costuma ser o material mais rico.

Pergunta que raramente decepciona: "o que você já tentou que funcionou, mesmo que só um pouco?"

4. Funcionamento atual

Aqui você mapeia o impacto na vida concreta, área por área:

  • Sono — horário, latência, despertares, qualidade percebida.
  • Alimentação — mudanças recentes de apetite ou peso.
  • Trabalho ou estudo — desempenho, faltas, conflitos, sentido.
  • Relações — quem sustenta, quem desgasta, quem sumiu.
  • Lazer e corpo — o que sobrou de atividade prazerosa e movimento.
  • Substâncias — álcool, tabaco, medicação, outras. Pergunte de forma neutra, quantificando: "quantas vezes na semana?" em vez de "você bebe muito?".

5. História pessoal e familiar

Composição da família de origem, clima da casa na infância, eventos marcantes, perdas, mudanças, adoecimentos. Trajetória escolar e profissional. Relações afetivas significativas. História de saúde mental na família, quando conhecida.

Você não precisa de tudo na primeira sessão. Precisa saber onde estão os territórios grandes, para voltar a eles depois.

6. Saúde e tratamentos

Condições clínicas, medicações em uso e quem prescreveu, acompanhamentos em curso, internações, cirurgias recentes. Terapias anteriores: quanto tempo, com que abordagem, como terminaram.

A pergunta sobre terapia anterior é uma das mais informativas da anamnese: "o que funcionou e o que não funcionou daquela vez?". A resposta desenha metade do seu enquadre.

7. Avaliação de risco

Não é opcional e não fica para depois. Pergunte de forma direta, calma e sem eufemismo, sobre ideação suicida, planejamento, tentativas anteriores, autolesão, violência sofrida ou praticada.

Perguntar não induz. Não perguntar é que deixa você sem informação. Se houver qualquer indicador, o registro precisa ser detalhado — o que foi dito, como você avaliou, o que foi feito, o que ficou combinado, quem foi acionado — como descrito em o que registrar em cada sessão.

8. Expectativas e objetivos

  • "O que você espera daqui?"
  • "Como você saberia que isto aqui está funcionando?"
  • "O que precisaria estar diferente em seis meses?"

Aqui você também alinha o realizável. Se a expectativa é conselho, diagnóstico rápido ou intervenção sobre um terceiro, é agora que se conversa sobre o que a psicoterapia faz e o que não faz.

Adaptando por público

Crianças. A anamnese principal é feita com os responsáveis, e boa parte dela é história do desenvolvimento: gestação, parto, marcos motores e de linguagem, sono, alimentação, controle esfincteriano, adaptação escolar, rotina atual, telas. A criança tem seu próprio encontro, com brincar e não com formulário. E há uma conversa de sigilo específica a ter com os responsáveis, sobre o que será e o que não será compartilhado.

Adolescentes. O sigilo precisa ser explicado para os dois lados, com as fronteiras claras, antes de qualquer pergunta. Adolescente que não entende o que será contado aos pais não responde nada de verdade — ou responde e se arrepende.

Casais. Além da história do casal, dois pontos exigem decisão antecipada: como você vai lidar com informação recebida individualmente e como o prontuário será organizado. Combine antes; não improvise depois.

Idosos. Vale mapear rede de apoio, autonomia funcional, perdas recentes, medicação em uso e história de quedas. E reservar mais tempo — a história é maior.

Quanto tempo isso leva

Uma expectativa realista evita a sensação de estar sempre atrasado. Para adulto com demanda circunscrita, uma a duas sessões cobrem os oito blocos. Para casos com história longa, comorbidade ou trauma, três sessões é comum — e continuar coletando depois é a regra, não a exceção.

Duas balizas úteis. A primeira: encerre cada encontro inicial com algo devolvido, mesmo que pequeno. Uma síntese de duas frases do que você entendeu é o que impede a sessão de parecer só coleta. A segunda: na terceira sessão, você deve conseguir dizer em voz alta a hipótese de trabalho e o plano. Se não consegue, não é falta de dado — normalmente é excesso de dado sem organização.

E há o caso em que a conclusão da anamnese é que o caso não é seu. Demanda que exige avaliação formal, quadro que pede acompanhamento psiquiátrico prioritário, abordagem que não é a sua. Encaminhar nesse ponto é o melhor uso possível de três sessões.

Erros que estragam uma boa anamnese

  • Perguntar em rajada. Cinco perguntas seguidas transformam conversa em formulário.
  • Ficar preso à tela. Anote pouco durante a sessão; complete o registro depois. Contato visual vale mais que precisão de transcrição.
  • Explicar cedo demais. A tentação de devolver uma interpretação na primeira sessão é grande. Uma hipótese formulada com um terço da história costuma custar caro.
  • Deixar a avaliação de risco para "quando houver confiança". Confiança se constrói justamente com quem pergunta com naturalidade.
  • Pedir tudo por formulário antes da sessão. Um questionário prévio ajuda com dados objetivos; a história, não.

O que fazer com a anamnese depois

Ela não é um documento morto. Ao final dos primeiros encontros, escreva uma síntese de meia página com: demanda, história resumida, funcionamento atual, fatores de risco e proteção, hipótese de trabalho e plano inicial. É essa página que você relê seis meses depois, e ela vale mais do que as quinze páginas de respostas.

Revisite a anamnese em dois momentos: quando o caso empaca e quando algo novo e grande aparece. Muita informação só faz sentido na terceira leitura.

Um formulário que você adapta

Ter um roteiro-base salvo evita reinventar a estrutura a cada primeiro atendimento — e evita esquecer o bloco de risco num dia corrido. O PsicologoFácil traz modelos de anamnese e formulários que você edita para a sua abordagem e seu público, com o resultado já ligado ao prontuário da pessoa.

O formulário é o andaime. A conversa é o prédio.

Conteúdo informativo, escrito para apoiar a sua prática. Não substitui a leitura das normas vigentes do CFP nem a orientação do seu conselho regional.

Registro de sessão em cinco linhas, no mesmo dia.

O PsicologoFácil guarda prontuário, agenda e financeiro num lugar só — com o sigilo que a sua prática exige.